A mostra é composta principalmente de esculturas que integram a figura humana e o globo terrestre. Ao contrário do que tradicionalmente ocorre numa galeria, as obras podem ser tocadas (vistas com as mãos) e poesias são disponíveis em três formatos (impressas, braille e narradas). Estimula-se todos os sentidos: tato, olfato e paladar, audição, visão e a propriocepção. Trata-se de um exercício de reflexão por meio da arte.

Os visitantes são convidados a fazer o percurso de olhos vendados. Os monitores-guias os conduzem de obra em obra. Cabe ressaltar, que são os visitantes que determinam o tempo de exploração de cada escultura, levantando o braço ou chamando pelo guia, pedem para mudar de obra. Durante todo o percurso há uma ambientação sonora, com a narração dos poemas e músicas especialmente escolhidas para promover a introspecção. Algumas obras foram produzidas com ervas naturais, assim, os cheiros podem ser revisitados. Somente depois de percorrer toda a exposição, os visitantes retiram a venda e fazem novamente o percurso reconhecendo ou descobrindo com a visão, as obras que antes exploraram com os outros sentidos.

O percurso da exposição não segue uma direção obrigatória. Os visitantes podem começar por qualquer obra, fazendo tanto a visita de olhos abertos, quanto de olhos vendados. Ao mesmo tempo, a exposição DE OLHOS NO MUNDO é um espaço de aprendizagem artística que dissolve as fronteiras entre olhar e tocar, pensar e fazer, sentir e expressar. Ela acolhe e amplia o repertório dos visitantes e, os convida a dialogar com a diversidade de linguagens (escultura, poesia, cheiros, formas, cores).

De olhos no mundo é um caminho para estimular, por meio da arte, a reflexão sobre temas de extrema relevância cultural, mais especificamente as obras provocam os visitantes a olhar com todos os sentidos para os problemas atuais, como guerras religiosas, degradação ambiental e fragilidade dos valores humanos nas relações sociais. A princípio podem soar como objetivos ousados e intangíveis, entretanto, as primeiras edições da exposição (realizadas em 2008, 2009 e 2010) apontaram resultados positivos e concretos.

De olhos vendados os visitantes experimentam a dependência do outro. Um outro que conduz a tocar obras que também são desconhecidas. Um outro que conduz o passo lento, arrastado e cauteloso. O outro que é cúmplice das descobertas sensoriais quando se reconhece o que se toca. Esta experiência desestabiliza alguns, assusta outros. Há aqueles que se incomodam e os que se reescrevem. Vai além de querer mostrar como se vive sem se ver com os olhos, apesar de muitos visitantes exclamarem que não tinham noção do que é “ser cego”. Existem pessoas que conhecem com as mãos um mundo mais amplo, dinâmico e sublime do que as pessoas que enxergam perfeitamente dos dois olhos.

Sabemos que muitas campanhas já foram criadas e, que cada vez mais, algumas organizações tem investido financeiramente na tentativa de formar uma cultura que mobilize as pessoas a consumirem de forma mais consciente, produzirem menos lixo, reciclarem, reduzirem a desigualdade, atuarem cotidianamente em causas sociais. Entretanto, muitas pessoas se mobilizam durante as campanhas e, nos meses seguintes, a rotina intensa e os afazeres pessoais acabam deixando de lado os cuidados que beneficiam a maioria, para voltar à atenção aos cuidados que beneficiam a minoria. Mas como mudar comportamentos tão arraigados? Como fazer com que as pessoas reciclem? Como fazer com que consumam menos? Como formar as pessoas para atuarem positivamente neste processo? Estas são perguntas inquietantes associadas à preocupação que inspira uma educação para a sustentabilidade.

De olhos no mundo é um projeto educativo que pode promover a todos, crianças, jovens e adultos, a sensibilização para agir em prol do desenvolvimento sustentável, em amplas facetas. Alinhado ainda a Carta da Terra, este projeto utiliza as artes visuais e textuais como um exercício de educação para uma condição de vida sustentável, o qual exige um novo sentido de interdependência global de responsabilidade universal.

Conhecemos a realidade que nos cerca em função de dois sistemas integrados: a sensação e a percepção. A sensação compreende a recepção das informações sensoriais pelos órgãos dos sentidos, incluindo todos os aparelhos e sistemas. Nossos sentidos recolhem e apreendem informações sobre o mundo exterior. Já a percepção envolve a organização e interpretação dessas informações recebidas, como ainda, a atribuição de sentido àquilo que os órgãos sensoriais processam inicialmente.

A sensação e a percepção são processos integrados e inseparáveis, e ambas são adaptáveis. Isso significa que um estímulo, que a princípio nos afeta intensamente, pode deixar de ter tanto impacto após um tempo de exposição repetitiva a ele. Mas também essa “adaptação” pode nos impedir de ver e ouvir outras realidades. A percepção sofre interferência de diversos fatores, dos quais destaco cinco: nossas experiências anteriores, o contexto em que elas ocorrem, as expectativas que temos, nosso estado emocional e o direcionamento de nossa atenção. Em função dos diversos fatores relativamente independentes que afetam nossa percepção, certas informações sensoriais podem muitas vezes nos induzir a erros e distorções, criando situações de  prontidão ou tendenciosidade para organizar as informações de uma determinada maneira. Precisamos assim recolocar nosso olhar sob diferentes perspectivas já que nossas percepções podem nos fornecer uma visão parcial e limitada. Há, portanto, a possibilidade de nós compreendermos melhor olhando o mesmo fenômeno sob outras condições. Ou quando olhamos com todos os sentidos. Acredito que devemos olhar de diversas perspectivas, numa exploração infinita, já que vivemos dos significados que damos à realidade.

O que pensamos, ouvimos, vemos, dizemos ou escrevemos sobre o mundo e sobre nós está cercado de interferências. Nós temos, então, uma experiência do real assim como do imaginário e, portanto, nossas evidências podem nos iludir.

Este texto é uma adaptação de um dos capítulos da minha tese de doutorado.
ZYLBERBERG, Tatiana Passos. Possibilidades corporais como expressão da inteligência humana no processo de ensino-aprendizagem. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física. Campinas, SP: 2007.

“Ao fazerem a visita de olhos vendados, muitos comentavam que não conseguiam visualizar cores. A exposição parecia ter apenas obras em marrom, preto e verde escuro. Quem identificava o globo terrestre, pensava na cor azul, para estes, somente o globo era colorido. Algumas esculturas foram interpretadas das formas mais diversas. Por exemplo, a obra – De olhos no mundo – foi reconhecida tanto como um leão com juba, quanto se fosse uma trompa de falópio e os ovários. Para os biólogos, os corpos eram troncos de árvore. Quando as pessoas tiravam as vendas, surpreendiam-se com os detalhes/cores da exposição. Falavam do deslumbramento de descobrir o que não era compreendido somente com o toque. A maioria dizia que realmente nos limitamos a ver o mundo com os olhos e que, com este sentido apenas, não aprendemos a enxergá-lo de forma ampla”.
Tatiana Passos Zylberberg

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Disponibilizamos a música para que você elabore seu vídeo e some seu olhar a esta campanha, de estar com todos os sentidos para você, para o outro e para o mundo.
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CARTA DA TERRA
“Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança” – CONHECA A CARTA DA TERRA, re-conheca que todos [...]

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Este poema de autoria de Tatiana Passos Zylberberg é a síntese da proposta do projeto DE OLHOS NO MUNDO que nos convoca a refletir/agir pelo outro e pelo mundo.

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DE OLHOS NO MUNDO
by Tatiana Passos Zylberberg
“Quando o ser humano entender que faz parte do mundo,
muitas transformações ocorrerão
ele não jogará mais o lixo nos lagos, rios e mares
porque saberá que são estas mesmas águas
que correm em seu corpo.
Quando o ser humano entender que faz parte do mundo,
muitos desmatamentos serão evitados
porque ele verá que cortando as [...]

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